Sorte ou habilidade: o que faz o sucesso de um gestor?

1 jul, 2011 | Nenhum Comentário »

GestãoHabilidade ou sorte? Qual porcentagem do desempenho de um gestor de fundos pode ser atribuída a um e a outro?

A habilidade dever ter uma grande participação na obtenção de retornos de investimentos consistentes, não é? Por qual outro motivo os gestores de fundos estariam nesse negócio? É como no esporte. Os jogadores de tênis com habilidades para conseguir um porcentual consistente de primeiros serviços – a retornos “backhand” consistentes – sempre ganham mais sets que aqueles que não conseguem isso. Se todos os tenistas conseguissem devolver 70% dos primeiros serviços de Rafael Nadal, todos eles estariam no torneio de Wimbledon. Do mesmo modo, se os investidores privados pudessem ter carteiras que gerassem retornos de dois dígitos, eles teriam. Eles não têm e, portanto, supostamente eles não podem.

Segundo uma pesquisa divulgada recentemente pela Schroders, 1,5 milhão de investidores apostam apenas em ações de uma única companhia. É difícil demais escolher outras. Essas maravilhas de uma ação nem mesmo chegam a ser “aquela maravilha” – na pesquisa, quase um terço dos participantes admitiu ter uma estratégia não muito diferente de um impetuoso quarto tenista no ranking contra o maior de todos: tendo vindo de uma longa sequência de derrotas, ele apenas espera por um golpe de sorte. Mas lembre-se de que a sorte não conta aqui.

O que conta é a habilidade. Os consultores financeiros parecem seguros disso. Ao comentar as maravilhas de uma só ação, Darius McDermott, da Chelsea Financial Services, sugeriu que os investidores as deixem para os profissionais: “Investir em um fundo mútuo administrado por um gestor de fundos experiente com uma boa folha corrida é uma garantia de que a carteira estará regularmente equilibrada, permitindo ao investidor obter lucros”, afirma.

Ele tem razão. Se um gestor tem “uma boa folha corrida”, esse gestor possui habilidades que podem ser repetidas – e quanto mais repetição, melhor.

Se você chega à frente por dois anos seguidos, você se destaca. Foi notável o fato de a pesquisa Thomson Reuters Extel Survey de 2011, divulgada recentemente, ter nomeado a JP Morgan Asset Management como maior firma pan-europeia de gestão de fundos pelo segundo ano consecutivo. Vencer duas vezes seguidas é o que diferencia os ‘McEnroes’ e os ‘Beckers’ daqueles que vencem uma vez só, como os ‘Stichs’ e os ‘Ivanisevics’.

Se você consegue ser bem-sucedido por três anos seguidos, você dever ter algo especial. Desse modo, fiquei impressionado com o fato de, no mês passado, a relação de consistência da Thames River Multi Capital, que avalia a proporção de fundos do primeiro quartil que produziram os maiores retornos em cada um dos últimos três anos, ter constatado que apenas 16 de um total de 1.188 conseguiram esse feito. Quão hábeis eles devem ser? Eles são os ‘Sampras’ e os ‘Federers’ do gerenciamento de fundos. “Quando há uma série de mercados bem diferentes, qualquer um que consegue ter um desempenho superior em todos esses cenários deve ser muito bom mesmo”, afirma McDermott.

Muito bom? Ou muito sortudo? Há outra maneira de olhar para a questão, que me foi sugerida por um professor de economia. Sabemos que apenas 16 de um total de 1.188 fundos conseguiram retornos de primeiro quartil excelentes em três anos consecutivos. Isso representa 1,35%. Todavia, se o sucesso se devesse totalmente à habilidade, os mesmos 25% estariam entre os de primeiro quartil nos três anos seguidos. Se, por outro lado, o resultado se devesse à sorte, um quarto dos principais 25% de fundos deste ano teriam estado no primeiro quartil no ano passado, e um quarto desses teria estado em 2009. Isso significaria que 25% seriam “top performers” de um só ano, 6,25% seriam campeões em dois anos e 1,5625% seriam vencedores em três anos. Na verdade, os gestores de fundos se saem pior do que isso.

Ou pense desta maneira: se chovesse muito entre 20 de junho e 3 de julho e todas as partidas do torneio de Wimbledon tivessem que ser decididas no arremesso de uma moeda, até mesmo o nosso impetuoso quarto tenista do ranking teria as mesmas chances que Nadal – mais uma vez, 1,5625% – de chegar à final. Se o tornozelo de Andy Murray não melhorar, essa pode ser nossa única chance.

O que isso diz sobre as nossas chances de escolher um fundo consistente? Falei recentemente com um dos fundos tricampeões: Mark Slater, cujo MFM Slater Growth Fund obteve um retorno de 47,8%, 69,75% e -23,2% (o suficiente para ficar entre o primeiro quartil) em cada um dos três anos até o fim de abril de 2011. Seu segredo? Uma técnica bem elaborada e muita prática.

Ele vasculha o mercado do Reino Unido em busca de companhias com previsões de crescimento dos lucros acima da média, uma baixa relação de crescimento do preço em relação aos lucros e um fluxo de caixa robusto. Em seguida, ele analisa a relação preço sobre lucro (P/L) para descartar as ações caras. A partir de uma lista resultante de 100 a 150 companhias, ele testa a dinâmica de crescimento buscando um aumento na participação de mercado, aumento das margens, bom retorno sobre o capital e gastos de capital baixos.

Slater diz que isso ajuda a gerar um “efeito propulsor” forte. Investidores desanimados – e tenistas que já estão no “break-point” no segundo serviço – certamente poderiam se contentar com isso.

Matthew Vincent é editor de Finanças Pessoais do Financial Times. As opiniões expressas neste artigo são pessoais, Valor Economico

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